domingo, 11 de maio de 2025
Desencantando. Parte 03
Desencantando. Parte 02
Mesmo assim, Gutierrez levantou devagar, como se lutasse contra o cansaço dos últimos dias, e abraçou Suzana com força. Sem dizer uma palavra, a beijou com urgência e ternura — um gesto que carregava medo, alívio e saudade acumulada. Ela não resistiu. O nó em sua garganta se desfez por um instante.
— Achei que você estivesse morto — sussurrou ela, ainda envolvida em seus braços.
— Eu também temi por isso. Mas precisava sumir até entender o que estava acontecendo… e até provar que não era culpado.
Ele a guiou até uma cadeira, sentou-se ao seu lado e abriu uma gaveta antiga. De lá, tirou um diário encadernado em couro surrado, com páginas amareladas.
— Encontrei isto entre as coisas do meu avô, escondido dentro de um baú. Ele sempre falava do velho Zulmiro, o pirata que teria enterrado um tesouro em Curitiba e que assombrava o Setor Histórico. Achei que fosse apenas uma lenda de família… até ver os mapas e os códigos aqui dentro. Resolvi investigar enquanto me escondia. E quanto mais eu lia, mais percebia que talvez... esse tesouro realmente exista.
Suzana passou os olhos pelas páginas, cheias de anotações em caligrafia trêmula, símbolos náuticos e coordenadas parciais.
— E agora? — perguntou ela, tentando assimilar o absurdo e o real que se misturavam.
— Agora, preciso da sua ajuda. Quando sair daqui, vá até sua casa de praia em Pontal do Paraná. No depósito, pegue mais pás, lanternas, cordas, ferramentas, comida... tudo o que pudermos carregar. Essa jornada vai ser difícil, mas se eu estiver certo... vai mudar tudo.
Suzana assentiu em silêncio. Levantou-se devagar, os olhos fixos nele. Depois, parou à porta e olhou por cima do ombro, a voz carregada de emoção contida.
— Mas por que, Suzana? Por que você foi tão longe por mim, arriscou sua carreira, sua vida... por alguém que todos julgavam culpado?
Ela sorriu de lado, aquele sorriso que sempre aparecia quando não cabiam explicações simples.
— Eu sou assim, Gutierrez. Quem poderia entender?
Desencantando. Parte 01 ( Continuação de "Tudo pode acontecer ")
A chuva fina tamborilava sobre o para-brisa do carro enquanto a delegada Suzana observava, pela terceira vez, a fachada da casa de Gutierrez, no bairro Mercês. Um sobrado discreto, de janelas verdes e paredes bege, que agora parecia guardar segredos além dos que ela já conhecia. Seu noivo e sócio desaparecera há três dias, e nenhuma pista concreta surgira — a não ser aquela intuição que a acompanhava desde os tempos de academia: Gutierrez estava vivo. E inocente.
Ela abriu o portão, ignorando o rangido enferrujado, e entrou. Parou diante da porta da cozinha, respirou fundo e tirou do bolso do casaco uma pequena chave dourada. A chave reserva que Gutierrez lhe dera meses antes, com um sorriso tímido e a frase: “Confiança também mora aqui.” Suzana girou a chave. A fechadura cedeu com um leve clique.
Dentro, tudo parecia em ordem, mas havia uma estranha marca no chão — como se algo tivesse sido arrastado.
Movendo o armário de mantimentos, revelou uma velha tampa de madeira. Suzana a ergueu com esforço, revelando uma escada de pedra escura, úmida, que descia até a escuridão. Seu coração disparou.
quinta-feira, 5 de outubro de 2023
Sete Além
Era uma daquelas manhãs frias. Passei no mercadinho, comprei umas porcarias, salgadinho, chocolate, chicletes, essas coisas pra fazer o tempo passar na viagem. Sentei na área de embarque para Ilha do Mel e fiquei observando as Barcas que chegavam e saiam, bem vazias, como era para se esperar numa manhã de quinta feira fora de temporada. Podia ficar horas ali sem cansar, mas, deu horário do meu ônibus e fui esperar o Graciosa. Chegou um ônibus enorme, daqueles com dois andares. Minha poltrona era a 7, lá em cima, reclamei da escada pro motorista que apenas olhou minha identidade e conferiu minha passagem, sem responder.
Ônibus vazio. Sentei, prendi meu cinto, coloquei meus fones e liguei na conta gratuita do Spotify. A cada duas ou três músicas, um comercial, até que no lugar de tocar a minha seleção iniciou um Podcast. Ia mudar pro Yt music, porém o assunto, sobre Sete Além, me chamou atenção. Fui escutando e vendo a paisagem tão conhecida por mim, ficar diferente, era realmente sugestionavel. O ônibus parou onde deveria ser Praia de Leste e algumas pessoas entraram no ônibus, deveria ser mais do mesmo, se não fosse o ar pesado, e o olhar desconfiado da senhora que ao meu lado sentou.
- Você não é daqui, né? Me perguntou. Pergunta que não sei porque fez meu corpo gelar e tremer sem motivos.
Eu não conseguia ver mais nada, até que chegamos numa paisagem cinzenta, estava frio, chovia. Desci do ônibus na rodoviária e fui até o banheiro, não lembrava ser tão sujo, não ter assentos e cheirar tão mal. Lavei as mãos. Tive fome, procurei uma lanchonete ainda dentro da rodoviária pedi por um salgado, disse bom dia, porém ninguém me respondeu. Dei a primeira mordida e percebi que o salgado era simplesmente horrível, com gosto de velho, murcho, sem sabor.
Eu sei o que vocês estão pensando, o título da história,o podcast e tal, toda essa cidade em tom cinza, pessoas sem me responder... Pois é, estava lá mesmo, cheguei em Curitiba!
sexta-feira, 26 de maio de 2023
Tudo pode acontecer. - Parte 15- Quem são elas, Beth
- Mimi, Orion, Poente, Gigi! Olha o petisco! Fico com dó no coração de deixar vocês meus gatos lindos!!! Mas a tia Lurdes vai cuidar de vocês!
- Vou sim, querida! Não se preocupe, foque no seu Congresso em Goiânia, dos bichanos cuido eu!
- Obrigada, tia! Pode me fazer mais um favor? Pode me emprestar a bengala que usou quando operou o joelho?
-Claro, mas para que você precisa?
- Uma amiga minha, torceu o pé. Mas é por pouco tempo...
- Tá, tá, imagine, que use o tempo necessário, eu espero jamais precisar de novo!
-Amém, tia! E obrigada por tudo.
Beth pega a mala arrumada na véspera, leva maquiagem, perfumes, os mais bonitos vestidos e sapatos. Ficará hospedada num hotel de luxo, precisa estar impecável.
Coloca a mala no carro e vai em direção ao apartamento da amiga Margot. A outra já a espera. Beth dirige até o Aeroporto, ficarão esta noite em Goiânia, em reunião de acertos com a chefia, depois partem pra Brasília. Chegam ao aeroporto Afonso Pena, Região Metropolitana de Curitiba. Beth entrega a bengala a Margot.
- Toma, é pra você, faz parte do teu disfarce.
- Injusto isso! Você chiquerrima num hotel e eu jogada ás pulgas!
- Para de reclamar, mulher, na próxima, trocamos.
As duas aguardam na fila para entrar no Avião, um funcionário da Azul se aproxima de Margot que aborrecida, largou a mochila no chao e se apoiou na bengala.
-Senhora, por gentileza, me acompanhe. A senhora não precisa ficar na fila, tem prioridade! Posso pegar sua bagagem?
-Claro, obrigada!
Beth fica sozinha na fila, com olhos arregalados. Pensa: - Sim, Margot é excelente no que faz, já encarnou a personagem! Espera eu contar isso na reunião!!!
Tudo pode acontecer- Parte 14- Quem são elas, Margot..
Margot apaga o fogão, é uma panela enorme de feijão cozido. Já deixou legumes congelados, saladas cortadas e lavadas em vidros reutilizados de conserva na geladeira. Lazanhas congeladas, pudim de leite, a criança adora pudim de leite! Despede-se do marido, que ainda insiste para ela não ir:
-É sempre o mesmo, Margot! Essa advogadazinha tua chefe é muito folgada! Por que não vai sozinha? É sempre igual! Outro marido corno atrás de provas, numa cidade sei lá onde e vai você viajar com a Elizabeth. Por que ela não arruma alguém, uma agência de detetives, isso, uma agência de detetives pra fazer essas coisas pra ela? Não é a maior empresa de advogados do Paraná? Não pode pagar?
-Detetives? Quase engasguei aqui!! Cada ideia que você tem!!! Olha, vc sabe que a Beth não dorme sozinha em quarto de hotel. Já te expliquei que quando ela era pequena teve aquele lance dela estar sozinha no quarto e um homem invadir, tentar levar ela a força, algo tipo Madelaine Macann... E é um cliente importante, político lá de Goiás, não dá pra confiar em terceiros. Tava pensando aqui, no Mario Fofoca, com ternos quadriculados investigando em um hotel de luxo...
- Quem é Mario Fofoca?
- Ah, pensei que você soubesse! Um personagem de novela, acho que dos anos 80.
- Você assistia novela?
-Quando era criança, sim!
Margot, vai pro quarto, pega uma mochila velha e nela coloca uma escova de cabelos, um par de meias furadas, uma havaianas já gasta, uma legging, camiseta e moleton que usa pra dormir. Olha pro carregador do celular. Sim. Vai levar. Discretamente coloca os cartões de crédito, o cartão do convênio médico dentro da carteira e guarda no armário. Pega apenas a identidade, o cartão do SUS e coloca na capinha do celular. Serão dias difíceis, mas o dinheiro desse trabalho pagará a tão sonhada viagem para Itália. Que Deus me proteja, diz baixinho. Volta para cozinha. Despede-se do marido e da filha. Nem quer ir mais, mas precisa!
quarta-feira, 24 de maio de 2023
Tudo pode acontecer- Parte 13
- Então, minha querida Ingrid, eu pensei em você por trabalhar de forma autônoma e não ter ligação com a polícia de qualquer forma. Gutierrez não é santo, nunca foi. Mas, especificamente neste crime a que atribuíram autoria a ele, é inocente. Na época do suposto crime, a suposta vítima, chamado Agenor das Neves, vulgo Cazuza, devia uma grana alta para o patrão do Gutierrez. Gutierrez costumava cobrar esse tipo de dívidas e com esse sujeito não foi diferente. Deu um "susto " no tal Cazuza como um primeiro aviso. Infelizmente foi visto por testemunhas ao abordar o sujeito num bar que tinha câmeras escondidas. Após o susto o sujeito sumiu, fugiu, sei lá. Dias depois um corpo totalmente carbonizado foi encontrado na região. Não pode ser reconhecido por DNA ou arcada dentária mas a família reconheceu um pedaço de relógio de metal próximo do corpo e o enterraram como se realmente fosse Agenor. Gutierrez foi condenado por assassinato. Fugiu de Pernambuco e começou a trabalhar comigo aqui no Paraná. Contou todos os detalhes dessa história para mim quando decidi montar a empresa de segurança. Gutierrez sempre foi fiel a mim, sempre foi sincero. No mais, o antigo patrão e padrinho do Gutierrez, mandou seus próprios homens investigarem toda essa história e descobriram que Agenor teria comprado 1 passagem de ônibus em cidade próxima a Santa Cruz do Capibaribe dias depois de ter sido supostamente enterrado, ou seja, está mais que claro que após apanhar e receber ameaças de Gutierrez o sujeito fugiu pra não pagar as dívidas e Gutierrez esta fugindo pra não pagar por um crime que não cometeu. Os funcionários do padrinho descobriram que Cazuza estaria morando em Brasília, como andarilho, morador de rua, usando inclusive uma alcunha de que já foi chamado em Santa Cruz, Gaiato.
Padrinho tem uma foto dele, mais magro, barbudo, sujo, porém facilmente reconhecível, saindo de um restaurante popular em Brasília.
O que preciso de você é simples. Preciso de uma campana em Brasília, pra pegar o Cazuza, provar que ele está vivo e absolver o Gutierrez. Padrinho tem bons homens, porém, são todos como uma família, unidos a décadas ao padrinho. E o Agenor já foi funcionário do padrinho que o traiu numa negociação e ficou com um dinheiro, quantia grande. Foi aí que o padrinho mandou Gutierrez ir atrás pra cobrar e começou toda essa encrenca... Padrinho nunca perdoaria uma divida assim, de traição. Gutierrez talvez até poderia dar fim no sujeito mas a ordem do padrinho foi dar um susto para tentar reaver o dinheiro. Gutierrez é um homem sensato, nunca faria algo além das ordens do padrinho. Não matou esse cara. Por isso preciso de você. Sem polícia envolvida. É campana, provas de vida do Agenor e o resto eu e nosso advogado resolvemos. Dinheiro não é problema, use quantas pessoas precisar.
Gutierrez não é apenas meu noivo. É a pessoa em quem mais confio neste mundo, é meu melhor amigo, meu sócio. Não só eu, mas também o padrinho queremos tudo isso resolvido o mais breve possível. Pode resolver isso pra mim?
- Claro, Su! Alguma vez te deixei na mão? Você sabe que minha agência é reconhecidamente a melhor agência de detetives do país. Tenho as pessoas certas pra colocar nesta campana. Você pode passar aqui no meu escritório para assinar o contrato e claro, tomar um café pra matar a saudade? As quinze horas de hoje tá bom pra você?
- Tá ótimo, amiga! Estarei aí. Beijos.
* Confiança é algo que se tem ou não. Algo que rompido, jamais será igual. Suzana confiaria sua vida a Gutierrez. Talvez, somente a Gutierrez. Nas próprias palavras de Suzana, sabemos que Gutierrez não é nenhum santo. Que teria matado Agenor sem ao menos piscar, se esta tivesse sido a ordem do padrinho. Mas, não foi.
** Como um homem bruto como Gutierrez conquistou o coração gelado de nossa heroína capricorniana? Há coisas, que só Suzana poderia entender...