segunda-feira, 6 de abril de 2015

Empatia

Olhei
Como talvez ninguém tenha olhado
Para sua dor
Querendo atenuar
Quem sabe esconder
Que suas dores também foram minhas
Um dia                                                  
Olhei                                                                    
Pra quem sabe, fingir                        
Que não as tenho mais.
                                                           

domingo, 29 de março de 2015

Meio desligada

Parece não sentir os pingos de chuva. Ignora a sombrinha. Atravessa a rua sem olhar. O motorista freia e busina. Na pastelaria  a chinesa perde a paciência ao repetir os sabores pela quinta vez. Come o pastel de carne, horas depois lembra que  não come carne. Mas aí  já  havia comido o pastel. Resolve ir para casa. Vai para o lado contrário ao seu ponto de ônibus. Deveria ter ido para a aula de inglês. Mas quem precisa de inglês? Gostaria de entender o que passa em seu próprio coração. Na bolsa  o livro que deveria ter devolvido na biblioteca. Chega em casa e abre o caderno pra estudar. Rabisca as iniciais dele. Se na prova caísse a biografia dele, tiraria dez.

http://m.vagalume.com.br/os-mutantes/ando-meio-desligado.html

quinta-feira, 26 de março de 2015

Perto do acelerador

Cada um só  vê  sentido
rodeando seu próprio  umbigo
Minha vida tomou tantos rumos
Eu só queria  não  ter sentido.
Não
Não
Não
Não

Procurei meu melhor amigo
Estava perto do acelerador
E tão  distante  estava aquele dia
Quando engoli minha própria dor

Cada rota de fim de mês
Cada tempo com a sua vez
Encontro a raiva, encontro as voltas
Só  não  te encontro
Desde aquela vez

Não
Não
Não
Não

Só  num instante  esqueci  voltar
Minha vida  não olhou pra trás
Foi na semana que  olhei no espelho
Foi num instante desisti pousar
Mas
Não
Não
Não
Não

quarta-feira, 4 de março de 2015

Hoje gritei seu nome.

Hoje gritei seu nome
Queria que soubesse
Que era minha voz
O que você ouvia

Desejando paz
Desejando mais
Desejando estar

Somente estar
Nesta tua coragem desperta
Tive medo dos teus medos
Tive medo do teu vazio

Desejando estar
Desejando mais
Não olhar pra trás

Orgulho de tua vitória
Com medo dos teus receios
Queria que soubesse
Que eu te daria as mãos

Desejando estar
Desejando mais
Te contar os meus desejos

De também não ter mais medo
De também ser sincera
De abrir os lábios e falar

Tudo o que um dia engoli
Com receios iguais aos seus
Faz tanto tempo
Ou foi ontem a noite mesmo.

Desejando estar
Desejando mais

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Entre dois amores.

Quando eu estava no colégio, um dia a professora de Ensino Religioso, que era freira, explicou que só existem duas vocações. Uma é para o sacerdócio a outra pro matrimônio. Disse que nunca deveríamos confundir com profissão. A vocação era um dom de Deus.

Ela me mostrou uma foto dele. Ele era realmente lindo! Loiro. Cabelos dourados e olhos azuis. Na foto, uma declaração de amor dedicada a ela. Os olhos de Rafaela brilhavam ao falar dele. Disse que eram iguais. Pensavam igual. Que ele seria tudo o que ela sonhava num marido. Ficaram algumas vezes juntos....Um dia, ela, que é tão senhora de si, o pediu em casamento. Então ele sorriu com aqueles olhos apaixonantes e disse: -Não Rafa! Você sabe que eu te amo, mas meu chamado é muito mais forte. Uma coisa é o amor que sinto por você. Outra é a minha vocação. Talvez um dia, eu ainda celebrarei o teu casamento...Tenho um convite para você. Abra!
Rafaela foi para Roma. Na cerimônia religiosa em que ele se tornava Padre, ela chorou...
E toda aquela história me remeteu a aula de ensino religioso. Pensei nas vocações, embora não compartilhe da fé de Rafaela, consegui ver com clareza algo que ali estava explícito. O amor tem várias faces. O amor não está condicionado ao plano físico. As vezes, queremos o amor além de nossa vocação, mas só estaremos plenos quando conseguirmos viver em separado cada uma dessas faces...


http://www.vagalume.com.br/legiao-urbana/monte-castelo.html

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O encanto da sereia.

Ele andava pela praia despreocupado. Estava de férias. Usava bermuda, camiseta e chinelos. Estava uma temperatura agradável. A água quente convidava para um banho de mar. Mas ele tinha ido lá pra pensar. Fazia alguns dias havia terminado um relacionamento. Já estava cheio de pessoas comuns e vazias. Não podia continuar com ela pra ter com quem conversar ou pior, para ter sexo garantido. Era isso. A maioria dos seus amigos, chegaram numa idade onde dava preguiça de sair pra balada, o emprego era estável, a conta do banco não preocupava muito. Então encontraram uma mulher, juntaram as escovas de dentes e só. Churrasco no domingo com amigos e familiares, televisão a noite depois do trabalho, joguinhos e redes sociais no computador ou celular. Isso não era vida.
    Ele queria algo diferente. Tentou falar sobre isso com um colega de trabalho. Parece que o cara não entendeu nada do que ele disse. Sugeriu um filhote de cachorro." Ele vai ser um bom passatempo, são tão amorosos, e precisam de cuidados também. Você e sua garota terão algo pra se ocupar. ..Foi o que ele respondeu.
    Melhor deixar pra lá. A namorada chorou, o chamou de monstro. Como podia? Agora que ela já fazia planos pro casamento? Depois de cinco anos juntos? Já tinha pensado na festa, até nos padrinhos...Não. Ele não prestava...
     Mas por que ele tinha que ser diferente? Porque não podia se acomodar? Por que tinha  que esperar e querer sempre mais de tudo? Não podia só trabalhar, transar, beber cerveja e reclamar do governo como todo mundo?  Assistir o jornal na tv e comentar na segunda feira tomando café na empresa sobre a gostosa da novela ou sobre a bunda da nova estagiária?
    As pessoas pareciam satisfeitas assim. Tolerando a sogra. Aguentando o cunhado. Dando  de vez em quando bom dia pro vizinho. Reunindo-se de tempos em tempos com colegas da faculdade. Rindo de velhas piadas.
    O gerente da empresa estava tendo um caso com uma das meninas da contabilidade.  Já era coroa, na casa dos cinquenta. A moça de vinte e dois anos, ainda estava na universidade. Era pouco mais velha que o filho dele. Ah, sim! Este era o assunto de todas as rodinhas do trabalho. Parecia que a diversão era fofocar sobre a vida dos outros...Será que só ele não dava a mínima pro babado do mês?
   Porque a vidinha comum que parecia tão doce a todos, a ele amargava os sentimentos?
   Porque só ele achava a vida uma grande merda?
   Parou de pensar um pouco, algo o distraiu. Um grande peixe saltou na água. A princípio, achou que era um golfinho. Subiu nas pedras para ver melhor. O peixe saltou novamente. Parecia enroscado em algo. Desejou como nunca ter mudado de ideia ao sair da pousada e ter trazido o celular com meia bateria mesmo...Aquilo daria uma boa foto... O peixe se aproximava cada vez mais da praia. Ele desceu das pedras, parecia não acreditar em seus olhos. Enrolada numa fina rede de pesca, uma criatura singular. A metade de cima de seu corpo era de uma linda mulher. Em baixo, uma grande cauda de peixe. Parecia desesperada. Se debatia na fina malha. Ele pegou no bolso o chaveiro do carro, onde tinha um pequeno canivete. Foi cuidadosamente cortando a rede e tirando por fim,  a criatura daquela tortura. Ela sorriu. Não falava, mas mentalmente parecia se comunicar com ele. Ele jogou a camisa e o chaveiro na areia e entrou com ela no mar. Mergulhou grudado naquela mulher incrível. Ela quase escorregava. Não era como tocar uma mulher comum. A pele fina e extremamente macia o excitava como nunca. Ele nem bem sabia o que estava fazendo. Nunca tinha estado com nenhuma garota que não tivesse duas pernas...Mas ela mergulhava e o conduzia. Ela sabia exatamente o que fazer.
     Ele não queria desgrudar dela. Quase lutou para não ser levado a praia novamente.  Já havia escutado histórias de sereias. Mas aquilo era fantástico demais. Nunca mais poderia esquecer do perfume daqueles longos cabelos, perfume encantador. Ou da magia de sentir a cauda se abrir e de ser sugado para dentro dela.
Ela era tudo o que ele sem saber, desejou. Mas agora ela já estava longe. Em algum lugar do mar. Escutaria para sempre em seus pensamentos aqueles cânticos gemidos.
    Ele comprou uma prancha. Todo e qualquer tempo que dispunha, passava no mar. A cada onda a procurava. Agora sabia porque era tão incompleto. Tudo o que ele mais  queria na  vida estava longe demais do seu alcance.

http://www.vagalume.com.br/ira/eu-quero-sempre-mais.html

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

No balanço da rede.

No balanço da rede
Vejo as estrelas
Queria seguir o  o Cruzeiro do Sul
Lembro de algumas conversas
Olhando o céu negro azul.

No balanço da rede
Escuto o mar
Queria seguir sem medo  
Lembro de alguns sonhos
Construindo meu enredo.

No balanço da rede
Vejo as estrelas
Queria seguir apenas
Lembro que em duas rodas
Tudo vale a pena.
                                                         
No balanço da rede
Vejo um gato
Leve, andando num muro.
Talvez caçando um rato.

No balanço da rede
Vou seguindo a vida
Hoje estou aqui
Amanhã nem sei
Quem sabe amanhã seja o início
De tudo o que um dia sonhei.