A rua está muito escura. As lâmpadas dos postes quebradas. Ela porém não tem medo de nada. Ela é que deveria ser temida. Ajeitou o anel gigante sobre o dedo. Uma motocicleta passa em alta velocidade. Ela joga uma pedra, incomodada com o barulho. Gosta do silêncio. Gosta do escuro.
Puxa uma tábua solta que deveria lacrar a entrada da casa abandonada. O que restou do chão, após o incêndio range a cada passo. Sabe que tudo pode desabar, mas apenas firma o chinelo nos pés encardidos. Num canto pega uma escada de madeira. Encaixa na abertura do sótão. Sobe e recolhe a escada. Põe a tampa. Num canto, cobertas amontoadas sob o papelão. Aquele mocó é dela. Apenas dela, nunca levou ninguém lá. Esta é sua segurança. Arruma as cobertas da melhor forma que pode. De dentro da calça, tira uma garrafinha de água com Tinner pela metade. De dentro da blusa tira um paninho. Molha o paninho no solvente, deita e coloca em frente a boca. Respira devagar. Vai relembrando a tarde que passou no parque de diversões. A cabeça coça. O nariz amortece. Respira com mais força. Podia morrer assim. Ninguém sentiria sua falta, ninguém choraria por ela. Talvez aquela educadora do abrigo, mas aquela chora por tudo. Ela mesma não lembra de ter chorado. Sempre foi menina de rua. E na rua é preciso ser forte. Seu nome do registro só era usado no abrigo, e na cadeia. Odeia seu nome. Na rua a conhecem por Estrela. Por causa do anel. E um pouco pelo nome do registro também, que é Estela.
Estrela começa a correr pelo sótão. Ri sozinha. Vai até a janela, pensa em gritar. O pouco de sobriedade que ainda tem a adverte do perigo. Volta para as cobertas. Molha mais o paninho. Segura na boca. Com a outra mão acaricia a própria orelha. Dorme. Sono profundo. Sem sonhos, como sua própria vida.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Odeio Raul!
Sempre odiei Raul Seixas. Quase sempre odiei Paulo Coelho. Ponto. Quanto ao primeiro, nunca enxerguei nele a genialidade de que falavam. Suas músicas nunca me disseram nada. O segundo, a princípio, tendo em mãos pela primeira vez um livro dele, na ingenuidade dos meus treze anos, gostei. Encantamento momentâneo. Indo mais a fundo, descobri uma fraude em pele de escritor. Um ex- satanista, idiota, metido a escrever coisas singelas, cheio de plágios e bobeiras que enojariam qualquer um que ame a literatura.
Pela passagem do meu aniversário, recebi uma cortesia da locadora próxima da minha casa. Não tinham o filme que eu queria assistir. O filme do Raul meio que surgiu em minha frente e aguçou minha curiosidade.
O filme é bom. Muito bem feito...continuo odiando Raul Seixas e odiei mais ainda Paulo Coelho. Agora ganhei mais embasamento para continuar detestando com a consciência tranquila de não ser antipatia gratuita.
E o que gostei no filme? Ver o "meu" apaixonante Marcelo Nova. Esse cara sim é genial( embora se auto considere discípulo do Raul) e só pela música "Deusa da minha cama" já vale ser "reverenciado" para sempre. Até porque, como minha personagem Suzana, não sou mulher de coisas mornas, de meios termos. Ou amo ou odeio. Ponto final.
http://www.youtube.com/watch?v=8h9e5JNSlN0&list=PL1A94AC408F5074D8&index=22
Pela passagem do meu aniversário, recebi uma cortesia da locadora próxima da minha casa. Não tinham o filme que eu queria assistir. O filme do Raul meio que surgiu em minha frente e aguçou minha curiosidade.
O filme é bom. Muito bem feito...continuo odiando Raul Seixas e odiei mais ainda Paulo Coelho. Agora ganhei mais embasamento para continuar detestando com a consciência tranquila de não ser antipatia gratuita.
E o que gostei no filme? Ver o "meu" apaixonante Marcelo Nova. Esse cara sim é genial( embora se auto considere discípulo do Raul) e só pela música "Deusa da minha cama" já vale ser "reverenciado" para sempre. Até porque, como minha personagem Suzana, não sou mulher de coisas mornas, de meios termos. Ou amo ou odeio. Ponto final.
http://www.youtube.com/watch?v=8h9e5JNSlN0&list=PL1A94AC408F5074D8&index=22
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Te desejo
Te desejo mais do que tudo, meus próprios desejos.
Te desejo meus beijos e o desejo nas madrugadas.
Te desejo minha garupa nos domingos de sol.
E o abraço apertado das crianças.
Te desejo mesa farta, tempero caseiro e sabores exóticos.
Estante cheia de livros, boa música ao vivo.
Te desejo trilhas, mato e cachoeiras.
Te desejo coberta quentinha e conversas que nunca terminam.
Te desejo mensagens de amor, filmes que fazem pensar.
Te desejo carinho e rede para balançar.
Te desejo dinheiro e tudo o que ele não pode comprar.
Te desejo aromas, novas sensações e dias inteiros sem sair da cama.
Te desejo lembranças engraçadas e planos para o futuro.
Poesia rabiscada em guardanapo e muito Rock" n" Roll.
Te desejo mais mil aniversários.
E que em todos eu possa estar.
Te desejo meus próprios desejos e mais do que tudo,
te desejo.
Para Willian R. Veloso.
Te desejo meus beijos e o desejo nas madrugadas.
Te desejo minha garupa nos domingos de sol.
E o abraço apertado das crianças.
Te desejo mesa farta, tempero caseiro e sabores exóticos.
Estante cheia de livros, boa música ao vivo.
Te desejo trilhas, mato e cachoeiras.
Te desejo coberta quentinha e conversas que nunca terminam.
Te desejo mensagens de amor, filmes que fazem pensar.
Te desejo carinho e rede para balançar.
Te desejo dinheiro e tudo o que ele não pode comprar.
Te desejo aromas, novas sensações e dias inteiros sem sair da cama.
Te desejo lembranças engraçadas e planos para o futuro.
Poesia rabiscada em guardanapo e muito Rock" n" Roll.
Te desejo mais mil aniversários.
E que em todos eu possa estar.
Te desejo meus próprios desejos e mais do que tudo,
te desejo.
Para Willian R. Veloso.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
domingo, 2 de dezembro de 2012
Não aconteceu em Ponta Grossa...
- Ana Carolina, Ana Carolina, ai, vem cá gostosa, ai Ana Carolina...
- Acorda, seu desgraçado! Quem é essa vagabunda?
- Que, o quê? O que foi sua doida?
- Tava sonhando com quem?
- Sei, lá Marisa! O que foi, pra quê me acordar assim?
- Mas você é muito sem vergonha, mesmo! Eu já lembrei quem é Ana Carolina. É aquela amiga da Suzana, que veio pra München...quando foi que você ficou com ela?
- Eu não. Não fiquei com ninguém, não. Ontem fiquei o tempo todo com você. Mal conversei com a Ana!
- Mas tava sonhando com ela, dizendo o nome dela, chamando de gostosa!
- Não, não é nada...os caras da faculdade ficaram falando...ela é bonita, devo ter ficado com isso na cabeça.
- Eu vou é ligar para Suzana e tirar isso a limpo, Eduardo!
- As quatro da manhã?
- Não quero nem saber! A Suzana tá de plantão na delegacia, deve estar acordada. Quero ver se você já conhecia essa menina ou o quê!
Suzana nem sabia o que dizer para Marisa no telefone. Tinha ficado perto de Ana o tempo todo, no dia anterior. Mas como responder em nome da amiga? Ana tinha ido para Ponta Grossa visitar Suzana mas já tinha voltado pra Curitiba. Não tinha ficado com ninguém, que Suzana soubesse, e Suzana sabia de tudo da vida de Ana. E a Ana tinha namorado. Não era de fazer esse tipo de coisa. Esperou o dia amanhecer para ligar para a amiga e tentar entender o que tinha acontecido.
- Como assim, se eu fiquei com o namorado da sua amiga? Tá louca Suzana? Não saí um minuto de perto de você. E a menina tava com ele o tempo todo também. Nem olhei para ele. Juro.
- Sei lá. A Marisa tá enlouquecida, querendo ir para Curitiba, para você dizer na cara dela que não ficou com o Eduardo.
- Que bando de gente louca, eu tenho minha consciência bem tranquila. Fala para menina me ligar, se quiser. Não fiz nada não, nem olhei, mesmo!
Ana não tinha feito nada. Não tinha olhado para ninguém. Ficou muito chateada. Por outro lado, sentia-se meio estranha ao pensar que um quase desconhecido pudesse sonhar com ela. Anos depois, passou por uma situação parecida, mas que pode aceitar com bom humor. O namorado estava dormindo em sua casa. De madrugada, começou a falar:
- Cara, que gostosa! Cara, aquela loira, hum, aquela loira é muito gostosa, aquela loira cara, a loira...
- Que é isso? Rodrigo? Tá falando com quem?
- Cara a gostosa, a loira gostosa da farmácia. Cara aquela loira é muito gostosa! Como eu queria aquela loira de papelão. A loira gostosa de papelão da farmácia.
- Como é isso? Rodrigo, que loira é essa?
- Nossa! Eu tava sonhando que conversava com o Pedro.
- Tava é falando de uma loira!
- Tá bom, é verdade. Eu tava falando pra ele da loira de papelão da farmácia. Desculpa, não foi por mal, eu juro. Nem é mulher de verdade...
Pra que brigar a toa? Ana achou melhor dar risada. Lembrou do carinha em Ponta Grossa, sonhando sem motivos com ela mesma. Gostava do Rodrigo. Não valia a pena brigar por causa disso. E como diria Suzana, os homens são assim, todos loucos mesmo, pra que tentar entender?
- Acorda, seu desgraçado! Quem é essa vagabunda?
- Que, o quê? O que foi sua doida?
- Tava sonhando com quem?
- Sei, lá Marisa! O que foi, pra quê me acordar assim?
- Mas você é muito sem vergonha, mesmo! Eu já lembrei quem é Ana Carolina. É aquela amiga da Suzana, que veio pra München...quando foi que você ficou com ela?
- Eu não. Não fiquei com ninguém, não. Ontem fiquei o tempo todo com você. Mal conversei com a Ana!
- Mas tava sonhando com ela, dizendo o nome dela, chamando de gostosa!
- Não, não é nada...os caras da faculdade ficaram falando...ela é bonita, devo ter ficado com isso na cabeça.
- Eu vou é ligar para Suzana e tirar isso a limpo, Eduardo!
- As quatro da manhã?
- Não quero nem saber! A Suzana tá de plantão na delegacia, deve estar acordada. Quero ver se você já conhecia essa menina ou o quê!
Suzana nem sabia o que dizer para Marisa no telefone. Tinha ficado perto de Ana o tempo todo, no dia anterior. Mas como responder em nome da amiga? Ana tinha ido para Ponta Grossa visitar Suzana mas já tinha voltado pra Curitiba. Não tinha ficado com ninguém, que Suzana soubesse, e Suzana sabia de tudo da vida de Ana. E a Ana tinha namorado. Não era de fazer esse tipo de coisa. Esperou o dia amanhecer para ligar para a amiga e tentar entender o que tinha acontecido.
- Como assim, se eu fiquei com o namorado da sua amiga? Tá louca Suzana? Não saí um minuto de perto de você. E a menina tava com ele o tempo todo também. Nem olhei para ele. Juro.
- Sei lá. A Marisa tá enlouquecida, querendo ir para Curitiba, para você dizer na cara dela que não ficou com o Eduardo.
- Que bando de gente louca, eu tenho minha consciência bem tranquila. Fala para menina me ligar, se quiser. Não fiz nada não, nem olhei, mesmo!
Ana não tinha feito nada. Não tinha olhado para ninguém. Ficou muito chateada. Por outro lado, sentia-se meio estranha ao pensar que um quase desconhecido pudesse sonhar com ela. Anos depois, passou por uma situação parecida, mas que pode aceitar com bom humor. O namorado estava dormindo em sua casa. De madrugada, começou a falar:
- Cara, que gostosa! Cara, aquela loira, hum, aquela loira é muito gostosa, aquela loira cara, a loira...
- Que é isso? Rodrigo? Tá falando com quem?
- Cara a gostosa, a loira gostosa da farmácia. Cara aquela loira é muito gostosa! Como eu queria aquela loira de papelão. A loira gostosa de papelão da farmácia.
- Como é isso? Rodrigo, que loira é essa?
- Nossa! Eu tava sonhando que conversava com o Pedro.
- Tava é falando de uma loira!
- Tá bom, é verdade. Eu tava falando pra ele da loira de papelão da farmácia. Desculpa, não foi por mal, eu juro. Nem é mulher de verdade...
Pra que brigar a toa? Ana achou melhor dar risada. Lembrou do carinha em Ponta Grossa, sonhando sem motivos com ela mesma. Gostava do Rodrigo. Não valia a pena brigar por causa disso. E como diria Suzana, os homens são assim, todos loucos mesmo, pra que tentar entender?
terça-feira, 13 de novembro de 2012
A paixão impossível.
Que estava apaixonada ela sabia. E sabia que se apaixonar era como olhar no espelho meio com sono. Você não vê nada, apenas olha e acha que está tudo bom, e depois sai descabelada, dando vexame. De verdade, não está nem aí. Ele passava longe de ser lindo, mas ela só pensava nele em cada minuto do seu dia. Ele era romântico, audacioso. As vezes arrogante, as vezes tímido e meigo. Ela analisava aquele pluralismo de personalidade e suspirava. Um homem de verdade. Que sabe como conquistar uma mulher, que sabe o que dizer, e sempre na hora certa.
Antes de embarcar para mais uma daquelas maratonas de shows, ele deu uma conferida no celular.Pela internet mais uma mensagem dela. Mas afinal, quem seria ela? Mais uma vez passou a imaginar como ela seria. Características físicas mesmo. Porque o que ela pensava, seus sonhos, seu modo diferente de dizer as coisas, ah, isso ele já conhecia bem!
Ele no palco a emocionava, ela jamais teria coragem de chegar mais perto que isso. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Ele cantou a música nova. Ela ficou imaginando em quem ele pensava quando a compôs. Sonhou acordada que era para ela. Que era a musa merecedora de tanta paixão.
As luzes quase impediam de ver a platéia. Estava na cidade dela. Provavelmente ela estava lá. Perto do palco, olhando para ele, cantando a música que ele jamais poderia confessar que fez para ela, aquela desconhecida que ocupava seus pensamentos e era a única que interessava entre tantas fãs. Foi para o hotel dormir, não sem antes olhar se havia alguma mensagem dela. Decepcionado ligou a tv e tentou se distrair.
Ela voltou a pé para casa pensando em como era boba. Ela, uma pessoa comum, apenas mais uma naquela multidão. Pensou em pelo menos enviar um boa noite, mas aquela hora ele estaria no hotel, provavelmente com aquela que tanto o inspirava. Melhor ir para casa, dormir escutando a música dele, sonhando com ele, sua paixão impossível.
Antes de embarcar para mais uma daquelas maratonas de shows, ele deu uma conferida no celular.Pela internet mais uma mensagem dela. Mas afinal, quem seria ela? Mais uma vez passou a imaginar como ela seria. Características físicas mesmo. Porque o que ela pensava, seus sonhos, seu modo diferente de dizer as coisas, ah, isso ele já conhecia bem!
Ele no palco a emocionava, ela jamais teria coragem de chegar mais perto que isso. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Ele cantou a música nova. Ela ficou imaginando em quem ele pensava quando a compôs. Sonhou acordada que era para ela. Que era a musa merecedora de tanta paixão.
As luzes quase impediam de ver a platéia. Estava na cidade dela. Provavelmente ela estava lá. Perto do palco, olhando para ele, cantando a música que ele jamais poderia confessar que fez para ela, aquela desconhecida que ocupava seus pensamentos e era a única que interessava entre tantas fãs. Foi para o hotel dormir, não sem antes olhar se havia alguma mensagem dela. Decepcionado ligou a tv e tentou se distrair.
Ela voltou a pé para casa pensando em como era boba. Ela, uma pessoa comum, apenas mais uma naquela multidão. Pensou em pelo menos enviar um boa noite, mas aquela hora ele estaria no hotel, provavelmente com aquela que tanto o inspirava. Melhor ir para casa, dormir escutando a música dele, sonhando com ele, sua paixão impossível.
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